PortalBO/Ceará: Patrões que mantiveram idosa em condição análoga à escravidão por 55 anos a chamavam de ‘mãe preta’ na internet

Vítima foi resgatada em Eusébio após ser escravizada desde os 7 anos de idade; investigada foi exonerada de cargo na Prefeitura de Fortaleza.

Uma investigação conjunta de combate ao trabalho escravo urbano revelou contornos históricos e degradantes em um caso de repercussão nacional na Região Metropolitana de Fortaleza. Uma idosa de 62 anos foi resgatada após ser submetida a 55 anos ininterruptos de trabalho em condições análogas à de escravo dentro de uma estrutura familiar de alto poder aquisitivo. O caso ganhou contornos ainda mais graves após a descoberta de publicações em redes sociais onde os patrões utilizavam termos de cunho escravocrata para se referir à vítima.

O resgate ocorreu em um condomínio de luxo localizado na cidade de Eusébio. De acordo com os relatórios gerados pelos Auditores-Fiscais do Trabalho e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), a idosa foi inserida na residência da primeira geração da família em 1971, quando tinha apenas sete anos de idade, passando a executar jornadas exaustivas de serviços domésticos sem qualquer garantia de direitos fundamentais. Em uma publicação resgatada de uma rede social de uma das integrantes da família, identificada como Nayarah Alencar Brasil Magalhães, a idosa aparece segurando crianças e é descrita na legenda com o termo “Nossa mãe Preta!”. De acordo com estudos do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Unesp, a expressão remonta diretamente ao período colonial, referindo-se às escravas negras que amamentavam e cuidavam dos filhos de famílias brancas.

O desdobramento administrativo das investigações atingiu o funcionalismo público. A Prefeitura de Fortaleza oficializou a exoneração de Zaamarah Brasil Andrade — irmã de Nayarah e atual patroa da idosa — do cargo em comissão que exercia desde 2017 na Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP). Diante das evidências coletadas pela fiscalização, Zaamarah, seu esposo Tiago Andrade e outros quatro familiares assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) perante o MPT. Relatos da auditoria-fiscal apontam que, durante o flagrante, a família demonstrou naturalização da conduta, questionando quando a idosa poderia retornar ao trabalho e justificando a ausência de salários sob o pretexto de que ela “era da família” e se ofenderia se recebesse remuneração.

Em nota oficial emitida à imprensa, o escritório de advocacia que representa os empregadores negou as acusações de escravidão. A defesa argumentou que as denúncias não refletem a relação de afeto e convivência construída ao longo de décadas e sustentou que a idosa usufruía de férias, plano de saúde e que possui contribuições previdenciárias recolhidas. A banca jurídica afirmou ainda que o termo de ajustamento firmado reafirma a disposição dos clientes em cooperar com as autoridades, confiando em uma apuração técnica que esclareça a realidade dos fatos junto ao Poder Judiciário.

Fonte: diariodonordeste.verdesmares.com.br

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