Natal, Rio Grande do Norte, 04 de Julho de 2020

Luíza: a mãe que chora o sangue amargo dos filhos

A realidade do bairro de Natal que se tornou sede de uma facção que promove crimes, terror e mortes

Sérgio Costa   28/03/2020 às 07h53   -  Atualizada em 28/03/2020 às 10h05

As calçadas e ladeiras de Mãe Luíza são longas, íngremes e encarnadas. Quem sobe e desce diariamente esse endereço conhece bem uma desafiadora e ao mesmo tempo sangrenta realidade que remete a algo que se tornou um fenômeno agressivo, medonho e presente na vida de muita gente, a violência. O bairro com aproximadamente 17 mil habitantes possui hoje duas características incontestáveis, o preconceito e o medo. Há duas décadas que quem vive nesse ponto da zona Leste de Natal testemunha ações policiais que quase sempre culminam em importantes prisões, apreensões de drogas, armas e confrontos.

Gideão de Andrade Rocha foi um dos personagens da crônica policial que se destacou quando o assunto se tratava de atos ilícitos planejados no bairro, a ele foram atribuídas inúmeras ações criminosas entre os anos de 2016 a 2020, inclusive de ter assassinado um policial. O criminoso foi morto após uma troca de tiros depois de efetuar disparos contra uma viatura da PM. Gideão só representa o retrato real de dezenas de jovens que moram em Mãe Luíza, indivíduos que fazem opções precoces e acabam nas entranhas do crime morrendo cedo acreditando em uma filosofia efêmera; "O certo pelo certo", que acaba errado.

Contabilizando os dados da Secretaria de Segurança e da Defesa Social do Estado, foram dezenas de mortos em confrontos com a polícia em apenas 24 meses, homens que trocaram tiros com a força de defesa do Estado nas ruas que cruzam Mãe Luíza e que acabaram inseridos em uma estatística que só prova que as facções são reais e insistem em desobedecer a lei. O sangue amargo causa dor e quem absorve essa já escancarada verdade é tão somente aqueles que tentaram de todas as formas afastar essas células do fim, a mãe, o pai, a família. As escadas de Mãe Luíza são escorregadias porque as lágrimas apuradas do silêncio disfarçam e camuflam os caminhos.

Entrar na rua Saquarema, na Camaragibe, Atalaia e Guanabara e ser recebido por tiros não é algo de boa vizinhança, a Polícia Militar tem seus motivos para investir bem em Mãe Luíza e reconhece que o bairro é também reduto e moradia de cidadãos e cidadãs que olham para o outro lado, para a direção certa e que inflamam a presença imprescindível da ordem. " Perdi uma parte minha, mas sei que ele procurou esse destino e diante disso não quero culpar ninguém, senão as escolhas dele", disse uma mãe anônima que conversou de forma ligeira com o PortalBO.

O médico Ricardo Nonato, nascido e criado no bairro lamenta o que vem ocorrendo e tenta de alguma forma estimular atividades sociais junto as igrejas para de alguma forma dá oportunidade a adolescentes em situações de risco. "Tive muitas chances de perder tudo que tenho hoje, mas fui muito orientado pelos meus pais mesmo morando em um lugar onde as oportunidades de seguir com o crime eram claras. Hoje a maioria dos meus amigos de infância está morta ou presa", relatou.

Alguns projetos importantes são desenvolvidos no bairro por instituições filantrópicas e religiosas, projetos esses que rendem resultados positivos, porém ainda tímidos diante de uma situação que requer urgência e atenção do poder público. De acordo com o experiente agente da Polícia Civil Paulo César, que durante vários anos chefiou as investigações na 4º delegacia, Mãe Luíza é um dos pontos de distribuição de drogas e armas para a região Metropolitana, mas o alvo da PM e da Polícia Civil é também um grupo de bandidos especializado em roubar veículos e residências, "A quadrilha vem sendo investigada, porém quando desarticulada logo outros grupos são montados e seguem o mesmo comportamento dos anteriores",informou Paulo.

É coerente destacar que Mãe Luíza é um celeiro de artistas, músicos, compositores, atores e atrizes que destoam de maneira criativa o som do tiro disparado a esmo ou no peito. Dançarinos e dançarinas que se dedicam o ano inteiro para brilharem nas festas juninas vestidos com exuberantes figurinos exibindo de verdade o que existe por trás das lágrimas de Luíza.

 

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