Natal, Rio Grande do Norte, 29 de Abril de 2017

Maurílio Pinto: sei que cometi erros, mas foram sem maldades

Aos 70 anos e aposentado da polícia, o Xerife abre as portas da sua casa para falar da vida pessoal e do trabalho que o tornou referência.

Thyago Macedo e Sérgio Costa   28/08/2011 às 14h45   -  Atualizada em 10/02/2015 às 01h57

Fotos: Thyago Macedo e Sérgio Costa
Xerife completou 70 anos

Ao lado da mulher Clarissa Jucá de Medeiros, o delegado Maurílio Pinto de Medeiros Filho recebeu a equipe do Portal BO para uma conversa pessoal e profissional. Nesta semana, o Xerife completou 70 anos e, aposentado, ainda recebe visitas e pedidos de ajuda para solucionar casos.

“Isso aqui está virando uma delegacia e está sobrando pra mim, que estou sendo a funcionária dele”, brinca a mulher de Maurilio. Embora reclame dos atendimentos feitos na própria casa, Clarissa sabe que será difícil evitar que o Xerife continue ajudando aos potiguares. Até porque foram décadas de prestação de serviços na Polícia Civil. 

Nesta entrevista, Maurílio Pinto agradece ao apoio e compreensão que teve da família e chega a declarar que teve medo quando um pistoleiro ameaçou queimar sua casa com todos os familiares dentro. Confira a entrevista.

Portal BO - Agora aposentado, o que é que o delegado Maurílio pretende fazer para preencher o tempo livre?
Maurílio Pinto
– Estou planejando algumas viagens, inclusive, a primeira eu já fiz, que foi para Acari, onde passei a festa da padroeira. Mas pretendo viajar para outros estados. Além disso, estou começando a ler. Eu confesso que não gostava de ler, mas passei a fazer isso e tenho lido muitas coisas interessantes. Atualmente, estou lendo a “Autópsia do Medo”, do jornalista Percival de Souza, e também “Um Certo Delegado de Capturas”, que ganhei do coronel Araújo. Esse livro, inclusive, me faz lembrar muito de papai, já que a história do personagem tem muitas coincidência com a vida dele.

 

 

Portal BO - O senhor ganhou o título de Xerife da polícia do Rio Grande do Norte há muitos anos. Mas dentro de casa, o senhor é Xerife mesmo ou quem manda é a mulher?
Maurílio Pinto
– [Risos] Minha esposa sempre me ajudou muito. Ela sempre compreendeu minha situação de ter que dedicar muito tempo à polícia. Muitas vezes eu passei datas comemorativas fora de casa ou 20 dias viajando e nunca houve conflito. Meus filhos também sempre entenderam e aceitaram meu trabalho. Então, acredito que sempre tivemos um bom relacionamento familiar e as tarefas foram bem divididas.

Portal BO – Como um dos principais nomes da polícia você participou de algumas das maiores ações da polícia no Rio Grande do Norte. Em algum momento, o senhor teve medo?
Maurílio Pinto
- Acho que todo mundo tem medo. Já tive notícias de pessoas que estavam articulando a minha morte e já recebi telefonemas ameaçadores. Certa vez, o pistoleiro Aurino Suassuna me telefonou ameaçando e chegou a dizer que iria queimar minha casa com meus filhos dentro. Na ocasião, eu disse que não adiantava ficar com ameaças e desliguei o telefone. Pouco tempo depois ele ligou de novo e disse que eu estava atrás dele no Pará, o que realmente era verdade. Inclusive, ele quis que eu soubesse que era ele mesmo que me ameaçava ao relatar um fato que aconteceu em Parnamirim, que só quem sabia era ele e eu. Mas, graças a Deus nunca aconteceu nada e tempos depois esse pistoleiro foi encontrado morto lá no Ceará.

 

 

Portal BO – Com sua experiência, qual o criminoso mais perigoso que já atuou no Rio Grande do Norte?
Maurílio Pinto -
Tinha um pistoleiro chamado Edmar Nunes Leitão e conhecido por Antônio Letreiro. Esse apelido ele ganhou porque atirava tão bem que dizim que ele escrevia o nome à bala. Além desse, tem o Idelfonso Maia Cunha, o Mainha, que era da região Oeste do Estado. Diziam que esse tinha mais de 100 mortes no Nordeste e chegou a ser capa da Revista IstoÉ.

Portal BO - E qual policial que o senhor destacaria como exemplo na história da polícia do Rio Grande do Norte?
Maurílio Pinto –
Teve um investigador de polícia, chamado João Leonardo, que era um exemplo, realmente. Para se ter uma ideia, ele era respeitado tanto pelos colegas quanto pelos bandidos. Seu apelido era “O Justo”, pela forma como ele conduzia as investigações. Além de corajoso, ele era honesto. Nessa vida a gente sabe que algumas vezes temos policiais desonestos, mas nunca soube de nenhum denuncia contra João Leonardo. Também considero como símbolo o delegado José Nunes de Oliveira, que está aposentado hoje em dia.

Portal BO – O senhor se arrepende de alguma coisa que tenha feito na polícia?
Maurílio Pinto –
Não me arrependo de nada do que fiz. Sei que devo ter cometido erros ou alguma injustiça, mas foram sem maldades. Tudo que fiz foi com o objetivo de ajudar a sociedade e a polícia do meu estado. Até mesmo nesse processo que foi aberto contra mim pelo Ministério Publico sobre as escutas telefônicas, tenho a consciência tranquila de que agi no estrito cumprimento do dever e com objetivo de ajudar a sociedade, nunca levei nada para o pessoal. Fico muito triste quando vejo que a ação é denominada de improbidade administrativa, pois pra mim isso quer dizer desonestidade.

Portal BO – Com a experiência que o senhor tem, se pudesse começar a ser policial hoje, o que faria para tornar a polícia do Rio Grande do Norte melhor?
Maurílio Pinto –
Cada dia que se passa a gente ver a tecnologia avançando e mais facilidades para investigações. Hoje, a polícia tem condições de levantar muitas informações que na minha época não tinha, assim como os bandidos também não tinham facilidades para adquirir armas. Uma das coisas que observo hoje é uma onda de execuções via motoqueiros. Quando Glauberto era secretário eu cheguei a apresentar uma proposta para que todo moto que tivesse dois homens fosse abordada e ao constatar a presença de arma realizar uma investigação imediata, com a realização de diligências aprofundadas para tentar localizar os mandantes. Hoje, limita-se apenas em autuar pelo porte de arma, não há aprofundamento na investigação.

 
Ainda novo, Maurílio viajava por todo o Rio Grande do Norte cumprindo diligências
 

Portal BO – O senhor iniciou carreira como policial desde novo, ao acompanhar o pai em diligências. Mas, caso não tivesse entrado na polícia, qual profissão teria escolhido?
Maurílio Pinto –
Eu me formei em jornalismo em 1975, mas nunca atuei. Eu lembro que quando era menino eu pensava em ser aviador. Inclusive, eu cheguei a servir à aeronáutica. Acontece que eu comecei a servir na polícia com 17 anos. Ao longo desse tempo, fui investigador de polícia, depois fiz faculdade de Direito e passei no concurso para delegado. A partir daí, prometi que ira ser delegado até o fim. Mesmo que alguém me oferecesse o dobro do salário eu continuaria como delegado. Caso me oferecessem três vezes mais, ai eu iria me balançar [risos]. 

 

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