Natal, Rio Grande do Norte, 17 de Outubro de 2017

Igor Pipolo: “penitenciárias têm que receber preso ruim e soltar uma pessoa boa”

Primeiro diretor do presídio de Alcaçuz fala sobre o sistema prisional do Rio Grande do Norte e apresenta alguns caminhos para ressocialização.

Thyago Macedo e Sérgio Costa   06/08/2011 às 14h47   -  Atualizada em 21/07/2017 às 14h34

Foto: Cedida
Igor Pipolo entrega medalha para os presos após competição interna

No dia 23 de março de 1998, o então governador Garibaldi Alves Filho inaugurava a Penitenciária Estadual de Alcaçuz Francisco Nogueira Fernandes. A unidade nascia com um novo conceito e buscava quebrar a sequência de violência da João Chaves, conhecida como Caldeirão do Diabo. A missão de comandar o presidio de Alcaçuz foi dada ao jovem Igor Pipolo, responsável por implantar um sistema de regras organizado para os presos. Treze anos depois, morando em São Paulo, sendo especializado em alta direção de segurança pela Universidade de Madrid e com vários cursos nos Estados Unidos, Israel e Milão, Igor conta sobre a experiência e Alcaçuz e avalia a atual situação da penitenciária. Hoje, ele é especializado em segurança empresarial, consultor da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) e proprietário da empresa Núcleo Consultoria em Segurança.

Foto: Thyago Macedo
Igor Pipolo, primeiro diretor de Alcaçuz
 

Portal BO - O que era e como era Alcaçuz?
Igor Pipolo - Alcaçuz foi concebida em momento interessante. O governo tinha intenção de acabar com o antigo Caldeirão do Diabo, como era conhecida a João Chaves. Com isso, foi criada toda uma estrutura para suportar esse novo modelo penitenciário. Na verdade, Alcaçuz teve sua construção não só na parte física, mas também na parte conceitual, na parte de infraestrutura. Eu lembro que na época um grande avanço foi uma parceria com a UFRN, que disponibilizava profissionais para fazer controle interno da evolução dos presos. Funcionava como uma comissão disciplinar com advogados, assistente social, psiquiatra e psicólogo. Então, a gente conseguia acompanhar e dar condição digna de moradia. Porque na realidade, uma penitenciária tem que ser vista como um grande hotel, sem luxo, mas onde pessoas vão ficar hospedadas. Quando você concentra pessoas com esse fator agravante que é o crime, você precisa ter o mínimo de conforto para que o preso não perca a dignidade, no sentido de ambiente limpo para evitar doenças. A própria convivência de pessoas juntas exige regras e disciplina forte.

Portal BO - Como é que foi a transição do sistema João Chaves para Alcaçuz?
IP - Alcaçuz ficou pronta, foi mobiliada e recebemos o pessoal. Foi um momento legal porque deu uma nova esperança. O fato de você sair de uma penitenciária velha e arcaica para um ambiente novo e arejado foi muito bom. Os presos tiveram a sensação de que estavam tendo tratamento digno. Agora Alcaçuz também entrou com regras novas, todo mundo usava uniforme e com cabeça raspada. Outra coisa que a gente precisava era passar disciplina. O mais interessante é que eles gostaram e compraram o sentimento de mudança. Havia uma grande comunicação.

Portal BO - A unidade recebeu criminosos perigosos e que carregavam as marcas da violência dentro da penitenciária João Chaves. Após essas adaptações, houve registro de crimes dentro de Alcaçuz?
IP - Naquela época tivemos poucos problemas. Tivemos um caso de suicídio de um psicopata, que se enforcou durante um jogo da Copa. Outro problema que tivemos foram as fugas. Tivemos três, mas tudo com conivência da guarda interna, que era chamada de guarda patrimonial, formada por policiais aposentados. Eles trabalhavam em regime duro para receber pouco. Além disso, muitos não tinham treinamento e alguns deles achavam ainda que os presos não mereciam o tratamento que estávamos implantando para os presos.

Portal BO - Hoje, Alcaçuz se tornou um ambiente de vários crimes, inclusive, mortes por armas de fogo. Como você avalia essa situação?
IP - Alcaçuz quando foi inaugurada tinha um brilho, mas isso foi se perdendo. Hoje, eu não acompanho diretamente. No entanto, o que me chega de informação é que se perdeu o controle, já foram registrados esquartejamento, mortes por armas. Na minha época, fizemos um levantamento e uma pedra de crack chegava a custar entre os presos R$ 10 porque era muito difícil entrar no presídio. Então, a chave é manter um padrão, inclusive com revistas frequentes e periódicas, porque isso os presos gostam. É importante lembrar que quem bagunça a cadeia é meia dúzia de preso. A maioria quer tirar sua cadeia tranquilamente. Mas existem determinados grupos que estão doidos para fugir, como os latrocidas, quadrilheiros e o pessoal das drogas.

Foto: Cedida
Policiais fazendo patrulha nos arredores da penitenciária de Alcaçuz
 


Portal BO - Por que você acha que se perdeu esse padrão estabelecido no início?
IP - O próprio conceito pode ter se perdido ao longo do tempo, porque não é fácil manter. As pessoas precisam de investimentos. A população carcerária do Rio Grande do Norte só cresce e o custo para o Estado é muito maior quando se há reincidência criminal. É preciso entender uma quebra de paradigma de que a gente não pode achar que o preso tem que ser mal tratado, ele tem que ser recuperado, porque um dia ele vai voltar para a sociedade. Se você durante o tempo que tem de chegar para ele e oferecer uma condição de geração de renda, com curo de capacitação para quando ele sair ter uma profissão, porque naquele momento a profissão dele é ladrão. A chance que o Estado tem é enquanto ele estar recluso.

 
"Presos gostam de disciplina", afirma
 

Portal BO - Seria a chance de oferecer uma oportunidade que talvez ele não tenha tido enquanto criança ou adolescente?
IP - Exato. Isso pode ser feito em parceria com órgãos como o SENAI e a FIERN, que oferecem cursos de pedreiro, eletricista e tanto outros. Claro que não são todos os presos que podem fazer, existem os perfis criminológicos. Mas a maioria quer cumprir sua pena e fica feliz com oportunidades de aprendizado. O segredo para um sistema penitenciário eficiente é receber preso ruim e soltar uma pessoa boa.

Portal BO - Em relação aos profissionais que trabalham diretamente com os presos e muitas vezes acabam se integrando com esquemas de corrupção, qual seria o caminho para evitar isso?
IP - São dois caminhos. Primeiro, a penitenciária tem que ter controle. Segundo, os profissionais têm que ser treinados e capacitados para os fins exclusivos que eles vão desenvolver. A Polícia Militar faz guarda externa, então, ela tem que ter um limite. A segurança de um presídio tem que ser feita em ciclos concêntricos, formada por três anéis. Nesse caso, a PM faz o anel mais externo e os agentes os anéis internos. Hoje, nós temos câmeras, detectores de drogas e várias ferramentas de controle. Ou a gente trabalha de maneira profissional ou vamos ter dificuldades. Muita gente constrói a penitenciária, gasta milhões, mas não entende que quem faz uma unidade prisional são as pessoas, são as ferramentas tecnológicas devidamente operadas. 

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